Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
No dia 6 de março de 2009, tomei posse na Universidade Federal de Sergipe, assumindo a responsabilidade de lecionar disciplinas na área de Patrimônio Cultural e Formação de Professor no Curso de Licenciatura em História, do qual sou egresso, como aluno, do ano de 1995. Ingressei no Nível Superior de Ensino Público com apenas o Mestrado em Educação, pela mesma UFS. A legislação da época permitia.
No final de 2009, fui aprovado para cursar o Doutorado em História pela Universidade Federal de Pernambuco, portanto, em pleno estágio probatório. Por essa razão, legalmente não tinha direto a pedir licença. Entretanto, meus colegas me fizeram um concessão, permitindo que eu fosse fazer meus estudos, sem redução de carga horária, logo sem prejuízo pedagógico para meus alunos.
A partir de fevereiro de 2010, quando se iniciaram as aulas na UFPE, minha vida se transformou numa verdadeira maratona, com viagens de carro e de avião entre Lagarto (onde seguia e sigo morando), São Cristóvão, Aracaju e Recife. O investimento nos seis primeiros meses foi muito alto. Fazer uso de ônibus, por exemplo, até poderia ficar mais em conta, mas não me daria a condição de cumprir a concessão de meus colegas, sem infringir a lei.
Todas as nossas economias, minhas e as de minha esposa (a professora Patrícia Monteiro), se esgotaram naquele curto espaço de tempo. Meu salário e o dela, mesmo somados, não supririam as nossas necessidades e as demandas do doutoramento. Assim, concluídas as primeiras disciplinas com sucesso e perfeitamente acolhido e ambientado em Recife e na UFPE, tomei a decisão de ligar para o Prof. Dr. Severino Vicente, meu orientador, e lhe comunicar a necessidade de trancar o curso e, eventualmente, abandonar.
Biu Vicente me disse para aguardar um pouco, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava para criar uma bolsa de estudos para servidores federais que estivessem cursando o doutorado, há pelo menos cerca de 270 km do lugar onde residia. Trata-se . de um suporte financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A distância entre Lagarto e Recife era de 540 km. Além disso, fui aprovado na seleção de doutorado entre primeiros cinco colocados. Condições que me davam o direito à bolsa de estudos.
Doravante, minha admiração por Lula só aumentou. Uma admiração que está acima de ideologias e de partidos. Senti por ele uma profunda gratidão pela oportunidade de poder concluir meus estudos e minha pesquisa doutoral. E o fiz com êxito, em 2013. Aquele bolsa bancou minhas passagens aéreas, hospedagens em hotéis descendentes, compra de livros e participações em eventos acadêmicos de Norte a Sul do país.
Pelas razões aqui expostas, há treze anos nutri o desejo de conhecer Lula pessoalmente, presenteá-los com meus livros, lhe dá um abraço e olhar nos seus olhos e lhe dizer: “Presidente, eu tenho doutorado hoje graças ao senhor!”. Ora, mas as graças não têm que ser dadas a Deus? Mais isto é mais do que óbvio. E porque agradecer a Lula, se tudo foi resultado de seus esforços? Também, mas sem aquele iniciativa dele jamais alcançaria sucesso na jornada. Só entende o que é isso quem passou por lutas maiores ou iguais as minhas e precisou contar com políticas públicas. E sobretudo, quem cultiva a nobreza da gratidão. Tão rara na humanidade, mesmo no tempo de Jesus quando somente um dos dez leprosos que ele curou voltou para lhe agradecer.
Pois bem, fui esta semana agraciado com este sonhado e tão desejado encontro, mais precisamente no último dia 29 de maio do corrente ano. E não poderia ter sido melhor, pois eu estava acompanhado de minha amada esposa. Foi no Hospital de Amor, em Lagarto-SE. Com a valiosa colaboração de José Carvalho de Menezes (Juquinha), fomos por ele apresentado ao presidente antes da solenidade, no hall de entrada da instituição. Isto, depois de termos passado por quatro revistas, com seguranças técnica e humanamente preparados, solícitos e compreensivos. Ainda sobre Juquinha, vale ressaltar que o Hospital de Amor em Lagarto só foi possível graças à sua luta junto ao senhor Henrique Prata, neto do médico e escritor lagartense, Ranulfo Prata (1894-1942).
O encontro com o presidente foi infinitamente melhor do que nos meus sonhos e superou todas as expectativas. Teria me contentado com uma self, por trás das grades de segurança. Mas não. Foi-nos permitido nos aproximar dele. Ao nos ver, todos as suas atenções se voltaram para mim, olhar fixo, atento e respeitoso. Eu, num misto de serenidade e emoção pude, enfim, fazer o que havia imaginado há anos. Ele sorriu, com olhos marejados, meu deu um afetuoso abraço e um beijo na face, no que lhe retribui da mesma forma. Ele ainda fez questão de abrir a caixa de livros que levamos para ele e me pediu que mostrasse cada um deles. Me parabenizou e fizemos um registro fotográfico que ficará para a posteridade, em meu celular, por iniciativa generosa de seu fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert.
Saí dali com a certeza de que vivi um dos momentos mais marcantes de minha existência. A foto mereceu o respeito até mesmo de quem é opositor a Lula, em minhas redes sociais. Embora isso não tivesse sido regra, para além dos muros da política partidária e das toscas ideologias, inclusive religiosas, o conhecimento e, repito, o respeito por minha história de vida. Enfim, a consciência plena e madura de que o que estava em questão, não era a foto ou uma tomada de posição política, mas um gesto.
