prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Em 2025, tive a oportunidade de dividir com ele a autoria do livro “Do zelo à palavra – Antônio Xisto dos Santos (1909-1986)”, pela editora Criação, obra financiada pelo Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional Aldir Blanc, mediante aprovação em seleção de edital promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Lagarto-SE.

Não é todo dia que se tem essa alegria de poder compartilhar de um projeto editorial com um daqueles que eu considero entre os alunos mais brilhantes que passaram por minha trajetória de vida e professoral. Discreto, reservado e tímido, Joabe Bernardo dos Santos, foi se revelando um exímio comunicador, dotado de uma sensibilidade artística que foi tomando conta dele ao longo de sua formação estudantil e depois, se configurando em sua exitosa carreira profissional.
Não tive ainda a alegria de vê-lo ocupar uma das cadeiras da Câmara de Vereadores de Lagarto. Em sua campanha, em 2024, chegou muito perto (com 454 votos), mas teve dificuldades para romper bolhas do sistema político local, que nem sempre favorece os mais capacitados e com boas intenções. Ainda assim, teve seu talento reconhecido, fazendo parte da gestão do prefeito Sérgio Reis, na equipe liderada pela Profª. Drª Taysa Mércia à frente da Secretaria Municipal de Educação, na condição de Diretor do Departamento de Ensino e Aprendizagem na Educação Básica (DEAEB).
Joabe Bernardo dos Santos é ceboleiro de origem, tendo nascido na cidade sergipana de Itabaiana, aos 12 dias do mês de agosto de 1981, na Maternidade São José. É filho de José Bernardo dos Santos (Marchante) e dona Niceia Maria dos Santos (Professora). Cinco anos depois, depois de uma passagem por São Domingos, cuja família por parte de pai residia, Joabe se transferiu em definitivo para Lagarto em 1986. Pesou nesta mudança, o fato de a família materna haver migrado do interior da Bahia — do município de Pedro Alexandre, povoado Malhada Nova — e se estabelecido em nas terra de Nossa Senhora da Piedade.
Desse modo, toda a sua formação escolar básica se deu na cidade de Lagarto. No Colégio Estadual Senador Leite Neto, entre 1986 e 1987, a Educação Infantil. Entre 1988 e 1998, o Ensino Fundamental na Escola Municipal Frei Cristóvão de Santo Hilário, o 1º ano Ensino Médio (1999), de igual modo, e os 2º e 3º anos no Colégio Cenecista Laudelino Freire, entre 2000 e 2001. É Licenciado em Letras-Português pela UFS (2011) e em Pedagogia pelo Instituto Franciscano Nossa Senhora de Fátima (2016).

Formatura do ABC – Colégio Estadual Leite Neto – 1987
Profissionalmente, começou a trabalhar com 14 anos de idade, em 1995. Seus pais possuíam uma mercearia, que teve origem em um antigo supermercado denominado Santa Clara, fundado em 1980, no bairroAlto da Boa Vista, de propriedade do seu avô José de Estevão, fazendeiro que migrou da Bahia em decorrência de um conflito familiar envolvendo um de seus filhos mais novos. Seu pai o introduziu no comércio, adquirindo doces — comprados na tradicional Bananita — para que ele os comercializasse em um espaço da mercearia. A primeira compra foi custeada por ele; as seguintes passaram a ser mantidas com recursos provenientes da própria gestão financeira das vendas.

Primeira atividade comercial – vendia doces na mercearia dos pais – 1995
O primeiro contato com a docência se deu em 1998. Até o ano de 2003, ministrou aulas de reforço escolar atendendo cerca de 30 alunos, da Alfabetização ao Ensino Médio. Curiosamente, além das disciplinas de linguagem, lecionou também Química, Física e Matemática.
Nesse ínterim, em 2000, teve seu primeiro vínculo formal de trabalho por meio de concurso público, atuando como Agente Censitário do IBGE. Entre 2005 a 2012, foi Agente Comunitário de Saúde, após aprovação em concurso público, na Prefeitura Municipal de Lagarto.
Em 2005, foi aprovado para ingressar na Polícia Militar de Sergipe e iniciou o curso de formação no 7º Batalhão, experiência que marcou profundamente seu senso de disciplina, responsabilidade e serviço público. Contudo, ainda durante a formação, fez, segundo ele, “(…) a escolha consciente de pedir desligamento, compreendendo que meu projeto de vida seguia por outros caminhos, mais alinhados à educação, à cultura e à palavra” (Joabe Bernardo dos Santos – Lagarto-SE, 27 de dezembro de 2025).
A partir de 2012, voltou a exercer a função de professor. Até a presente data, atuou como Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literatura no Colégio Nossa Senhora da Piedade (CNSP), lecionando do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, entre 2012 e 2020; foi Diretor Escolar na Escola Municipal Paulo Rodrigues do Nascimento, de 2013 a 2016; de 2014 a 2016, foi professor de Língua Portuguesa no Colégio José Augusto Vieira, no Ensino Médio (em 2017, foi Coordenador Adjunto do Ensino Médio na mesma instituição); de 2018 a 2022, desempenhou, simultaneamente, as funções de Coordenador Esportivo da Fundação José Augusto Vieira (Ensino Fundamental) e de Coordenador Pedagógico do Colégio José Augusto Vieira. Em 2019, atuou como Assistente Administrativo no Colégio Estadual Dom Mário Rino Sivieri. De 2020 a 2024, exerceu a mesma função no Colégio Estadual Dr. Evandro Mendes. No período de 2023 a 2024, foi Coordenador Geral do Colégio Libertar, pertencente ao Grupo Jardins.
Minha escolha pela docência não foi um acaso, mas o resultado de uma trajetória silenciosamente construída entre heranças familiares, vivências comunitárias e decisões conscientes. Ainda jovem, atuei como professor de banca, ministrando aulas de reforço, experiência inicial que já revelava uma inclinação para o ensino. Cresci ouvindo os relatos de minha mãe, professora rural na Fazenda Buril, às margens do rio Vaza-Barris, onde, a serviço da Prefeitura de São Domingos (SE), alfabetizava vaqueiros e filhos de vaqueiros. Suas histórias não falavam apenas de ensino, mas de educação como ato de dignidade e transformação social
Joabe vem de uma família composta por cinco irmãos (Jeroaldo e Jaronaldo – ambos falecidos em acidente de trânsito; Jaudiceia, Jadenilson e Jackson). Homens têm como sobrenome: Bernardo dos Santos e as mulheres, Maria dos Santos Ramos. Três deles seguiram a formação técnica em Contabilidade e atuaram na área; outro tornou-se empreendedor; e minha irmã seguiu na docência, lecionando na rede municipal de São Domingos. Inserido nesse contexto, afirma que chegou a decidir pela área da Contabilidade, influenciado pela lógica familiar e pelas possibilidades profissionais. No entanto, ao final do Ensino Médio, “algo se deslocou”, ressalta. A convivência intensa com jovens na Crisma, o diálogo, a escuta e o acompanhamento formativo reacenderam nele o sentido pedagógico herdado, vivido e observado desde a infância. “Foi nesse espaço de formação humana e espiritual que compreendi que meu lugar era a docência, não apenas como profissão, mas como projeto de vida”.

Registro de atividade docente extraclasse – CNSP – Visita ao Jornal Cinform – 2013
Como vimos anteriormente, Joabe também tem talentos para a política. Assim ele descreve como seu deu o gosto pela arte de tentar convencer pessoas e fazer algo por elas:
Minha trajetória política nasce no cotidiano familiar. A política sempre esteve à mesa — no almoço, no jantar e nos encontros de família — marcada pelas experiências do meu pai, vereador por dois mandatos e vice-prefeito também por dois mandatos em São Domingos (SE). Esses diálogos não apenas formaram opinião, mas despertaram em mim o desejo de participar ativamente da vida pública.
Iniciei minha militância ainda jovem, na campanha municipal de 1996, período em que, como estudante, vivi os efeitos de uma gestão desastrosa: falta de estrutura, alunos pagando giz e disputando cadeiras em sala de aula. Aquela realidade gerou indignação e me levou às ruas, ao lado de outros jovens, em defesa da candidatura de Jerônimo Reis. Mais tarde, atuei nas campanhas presidenciais do PT, a partir de 2003, fortalecendo minha formação política.
Apresentando um perfil político muito semelhante ao meu, Joabe costuma dizer que sua trajetória política em Lagarto sempre se deu “fora de rótulos rígidos”, sobretudo se considerarmos o fato de vivermos numa cidade historicamente marcada pela polarização de grupos.
A esse respeito, afirma:
Já transitei por diferentes campos eleitorais: meu primeiro voto foi em Artur Reis, para deputado estadual, e Sérgio Reis, para deputado federal, seguindo, por anos, o chamado grupo dos Reis, que oscilava entre Jerônimo Reis e Zezé Rocha, no campo conhecido como Saramandaia. Em 2008, votei em Valmir Monteiro para prefeito de Lagarto, nome remanescente do Bole-Bole; em 2010, em Gustinho Ribeiro para deputado estadual; posteriormente, apoiei Lila Fraga, reconhecendo nele a força de uma candidatura nova, e, em outros momentos, votei — lamentavelmente — em políticos de fora, por ausência de identificação local. Por isso, não me declaro nem Saramandaia nem Bole-Bole, embora reconheça que votei mais vezes no campo saramandaia, movido, muitas vezes, por um voto afetivo, menos racional, fruto das relações, da memória e do pertencimento — o que também revela minha disposição de rever escolhas, amadurecer posições e compreender a política como processo, não como dogma.

Em 2023, filiou-se ao Cidadania. No dia 14 de novembro daquele ano, participou de um ato decisivo para a atuação pública: a audiência que discutia a permuta envolvendo o prédio do CJAV. O episódio nos reaproximou, depois de anos, embora nos falássemos casualmente. Foi uma bandeira que conseguimos fazer mexer com a população lagartense. “Ali, ao lado de outras vozes comprometidas, defendi a cultura, a memória e a identidade histórica da nossa cidade”, relembra Joabe. Não tendo sido eleito em 2024, como já adiantei, segundo ele “(…) reafirmei algo essencial: minha caminhada política não nasce da conveniência, e sim da convicção de que Lagarto precisa de vozes firmes, coerentes e comprometidas com o interesse público”.
Para além da vida docente, Joabe também encontrou tempo para construir uma bela história no campo cultural em Lagarto, com destaque.
Minha atuação cultural em Lagarto nasce da periferia, do chão batido, da escuta atenta aos contos populares, ao aboio dos vaqueiros, às parlendas e às cantigas que atravessam gerações. Desde cedo compreendi que essas expressões não são folclore decorativo, mas a própria tecitura da nossa identidade coletiva. (…) Minha atuação cultural é, antes de tudo, um gesto político: defender a memória, a palavra e a dignidade do povo, reconhecendo que cultura não é ornamento — é identidade, denúncia e pertencimento.
Em 2003, enquanto integrante da Legião de Maria, foram desafiados a preparar uma quadrilha para o São João Legionário. Ele propôs algo além do formato tradicional:
“(…) se o Nordeste é belo, que apresentássemos sua beleza inteira — as novenas, os festejos do padroeiro, a fé popular e o drama social que também nos constitui. Dessa inquietação nasceu um roteiro próprio, costurado com poemas autorais, entre eles Nordestinado — “se eu contar a minha história, vocês pode inté chorar…” — e A justiça é cega, um grito contra a desumanização do povo pobre, assassinado pela fome e pelo abandono”.
Assim, a comunidade viu nascer o grupo Tecendo a Manhã, organizado pelo Prof. Dr, Fábio Oliveira, também membro da Legião de Maria, com uma proposta de cultura mais clássica. Do diálogo entre essas experiências emergiu, de forma simples e despretensiosa, o Grupo Cultural Louvor Sertanejo: uma iniciativa juvenil que transformou fé, poesia e crítica social em expressão artística popular.
Minha caminhada cultural não se encerrou ali. Em 2009, no Encontro Nacional dos Estudantes de Letras, realizado em Niterói (RJ), fui eleito membro da Executiva Nacional, representando o estado de Sergipe, com mandato de dois anos. Entre 2012 e 2015, presidi a Associação Cultural Colcha de Retalhos, reafirmando o compromisso com a organização, a valorização e a resistência da cultura popular.
Joabe Bernardo dos Santos é cordelista, memorialista e pesquisador da cultura popular, dedicando-se ao registro, à valorização e à difusão das manifestações culturais do povo nordestino, compreendendo a palavra escrita e oral como instrumento de identidade, memória coletiva e resistência cultural.

Grupo Cultural Louvor Sertanejo – 2004
Dois outros campos de sua trajetória de vida que merecem um registro são o da vida social e religiosa.
Minha vida social e religiosa foi construída sob o signo da solitude reflexiva. Como caçula, com irmãos significativamente mais velhos, aprendi cedo a conviver comigo mesmo, a pensar em silêncio, a observar o mundo antes de me lançar nele. Essa experiência moldou meu modo de ser, de me relacionar e de atuar profissionalmente: reservado, atento e profundamente reflexivo.
Para ele, “(…) sua trajetória religiosa não foi linear, mas formativa”. Em 1993, iniciou a catequese católica, ainda que não a tenha concluído naquele momento. Em 1994, motivado por um tio, vivenciou um período de estudo bíblico com as Testemunhas de Jeová, aprofundando-se na leitura do livro Viver para Sempre. Embora tenha concluído o estudo, optou conscientemente por não ingressar na organização religiosa.
Inquieto e sempre na busca de algo que o preenchesse espiritualmente, entre 1995 e 1996, viveu uma experiência marcante com uma religião de matriz africana.
Diante da minha casa funcionava um terreiro de candomblé, cujos atabaques, rituais e disciplina despertaram minha curiosidade e respeito. A convivência com essa tradição — mediada pela amizade com Gugu, filho da dirigente do terreiro — ampliou minha compreensão do sagrado, da ancestralidade e da dimensão comunitária da fé.
Em 1997, volta para o seio da Igreja Católica, faz a Crisma e passa a frequentar assiduamente a Igreja Católica. Em 1999, ingressou na Legião de Maria, movimento que restaurou sua fé: “(…) reconfigurou minha espiritualidade mariana e deu novo sentido ao meu compromisso religioso. Permaneci na Legião de Maria de 1999 a 2013, período de intensa vivência comunitária e serviço pastoral”.

Celebração da Crisma – com Dom Hildebrando e Mons. Mário – 1997
Entre 2003 e 2013, atuou na catequese da Crisma, exercendo funções de catequista e de coordenador paroquial. Em 2016, a convite do padre Raimundo Diniz, torno-se Ministro Extraordinário da Sagrada Eucarística, ministério que exerceu até 2019. Atualmente, segue participando ativamente das celebrações litúrgicas.
Diante desse itinerário, afirmo-me católico por convicção, mas profundamente comprometido com o respeito ao sagrado do outro. Cada experiência vivida contribuiu para compreender a fé como tecitura plural, diálogo e convivência, fortalecendo minha capacidade de respeitar, acolher e construir boas relações com pessoas de diferentes crenças e caminhos espirituais.
Ao ser perguntado sobre suas principais referências intelectuais, culturais e profissionais, Joabe, generosamente me insere em seu valioso hall de nomes, dizendo: “No ensino fundamental, o Prof. Dr.Claudefranklin Monteiro, de História, contribuiu para a construção de uma visão crítica da realidade e da formação social brasileira”.
Minhas referências intelectuais, culturais e profissionais foram sendo constituídas ao longo do tempo, a partir de encontros significativos que moldaram minha forma de pensar, ensinar, produzir conhecimento e atuar com rigor ético e estético.
No campo intelectual, suas primeiras e mais marcantes referências foram seus professores, desde o Ensino Infantil até a universidade. As professoras do Ensino Infantil com as contações de história. A professora Cátia Cilene destacou-se pelo cuidado, respeito e compromisso com a Língua Portuguesa, ensinando-o que o uso da linguagem exige responsabilidade e sensibilidade. Já o com o saudoso Celso Milton, professor de Redação, revelou-se um exímio produtor textual, capaz de enxergar a estética das letras, despertando nele o olhar para o texto como construção artística e discursiva. E como o jovem Joabe se desenvolveu nesta área para a nossa felicidade!
No que se refere ao processo de formação de leitor, destaca a escritora Ruth Rocha, a qual exerceu papel fundamental, sobretudo em sua infância e adolescência, ao despertar nele o prazer pela leitura e a compreensão do texto como espaço de imaginação, crítica e sensibilidade. Progressivamente, esse percurso foi ampliado pelo contato com os chamados clássicos da literatura brasileira, a exemplo de Machado de Assis, José de Alencar, Raul Pompeia e Mário Quintana, entre outros, “(…) que contribuíram para a maturação do olhar literário, o refinamento estético e a compreensão da literatura como espelho das contradições humanas, sociais e históricas. Essas leituras consolidaram uma relação profunda com o texto literário, não apenas como objeto escolar, mas como experiência formativa, ética e cultural”.
No campo da Linguística e do ensino da língua, influenciaram-me decisivamente Sírio Possenti, pelo pensamento crítico sobre o ensino de Língua Portuguesa; Maria Cecília Mollica e Maria Luiza Braga, organizadoras de importantes obras sobre a Sociolinguística; Ferdinand de Saussure, considerado o pai da Linguística moderna; além de Irandé Antunes e Evanildo Bechara, este último membro da Academia Brasileira de Letras, cuja obra pude conhecer de perto. Na universidade, tive como referências diretas o professor Dr. Antônio Cardoso, na área de Crítica Literária, e o professor James Bernardo, na Linguística, ambos decisivos para a consolidação de minha formação acadêmica e teórica.
Culturalmente, diz ser inspirado por artistas e intelectuais que dialogam com a identidade nordestina e brasileira, a exemplo de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Cássia Eller, Mestrinho, Amorosa, Antônio Carlos do Aracaju e Sergival. No campo dos estudos da cultura popular, destaca Sílvio Romero, especialmente pelas obras Contos Populares do Brasil e Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil, além do escritor sergipano Vladimir Souza, autor de Feijão de Cego, cuja escrita, segundo ele, “(…) dialoga profundamente com o território, a memória e o cotidiano nordestino”.
Do ponto de vista profissional, ressalta que aprendeu o valor do rigor, da organização e da ética com referências como o professor Gilson Alves, a professora Mestra Leiry Daiana, o Dr. Luciano Prata, entre outros, que contribuíram de forma decisiva para a construção de uma postura técnica, responsável e comprometida com o serviço público e com a educação.
Essas referências, em conjunto, constituem a base do meu pensamento, da minha prática pedagógica e da minha atuação profissional, articulando linguagem, cultura, identidade e compromisso social.
Por fim, pedi a Joabe Bernado dos Santos que se expressasse a respeito do seu amor por Lagarto, afinal de contas, este ano ele celebra 40 anos de residência e atuação fixa em nossa cidade, tornando-se um autêntico e refinado papa-jaca.
Nesse sentido, a seguir cada palavra, na íntegra, deste seu sentimento de Lagartinidade:
A cidade é o nosso lugar no mundo. Confesso: em algum momento desejei ter nascido na Maternidade Zacarias Júnior, onde tantos respiraram pela primeira vez e chegaram à vida. Mas, ainda que aqui eu não tenha nascido, é aqui que serei sepultado (Cemitério Senhor do Bonfim). Será a esta terra que devolvereis os grãos que formaram minha identidade, minha história e meu pertencimento.
Cheguei a Lagarto aos cinco anos de idade. Foi aqui que aprendi a ler e a escrever, nos bancos da Matriz de Nossa Senhora da Piedade, onde também costurei minha religiosidade, minha devoção e minha fé. Lagarto me ensinou os sabores próprios do seu chão: a jaca e o caju dos sítios que não plantei, o roxo maduro do jamelão; o quebra-queixo e o “nego-bom” da Cidade Nova, o cachorro-quente da Exposição, e a felicidade simples de andar nas barcas rústicas durante as festas de setembro.
É daqui a pulsação que acelera o sangue no peito, provocada pela multidão da Procissão da Piedade, pelo desfile de 7 de setembro, pelo encontro coletivo que nos reconhece como povo. É daqui o embalo da musicalidade da Banda Los Guaranis e o romantismo da Banda Violão de Ouro, sons que atravessam gerações e guardam nossa memória afetiva.
Lagarto também é a vaquejada, tangendo o gado e assentando o pensamento na cultura vaqueira, expressão viva de um povo que resiste, cria e se reconhece no próprio gesto. Meu amor por esta cidade não é circunstancial; é uma reafirmação de identidade e pertencimento.
Sou apenas um retalho — mas um retalho consciente — dessa grande colcha que compõe Lagarto. Uma colcha feita de fé, cultura, memória, afeto e chão. É nela que me reconheço. É nela que permaneço.