Carta para Vicente Batalha

Por Carlos Batalha

Publicado em 11/08/2018 as 16:27

Neste ano de 2018 o Dia dos Pais está sendo comemorado no dia 12 de agosto.

Embora para mim todos os dias sejam dias dos pais e das mães, não se pode deixar de come-morar a simbologia da data.

Resolvo então, para matar a saudade, enviar uma carta a "seu Vicente".

Puxo uma cadeira, me posiciono frente ao meu computador e começo a escrever algumas linhas para homenagear e matar a saudade de Vicente Batalha, meu velho e querido pai.

A saudade é grande. Afinal de contas são 03 anos de distância, uma distância muito maior do que aquela que começou no longínquo ano de 1974, quando por vontade própria deixei Salvador e me mudei para Aracaju.

Ao longo dos anos, aquela saudade sempre era abrandada inicialmente por cartas, já que a telefonia era precária à época, depois por telefone e pelas visitas que sempre fazia a ele e a D. Nélia, minha querida e amada mãe, uma mulher guerreira, de fibra extraordinária e que soube com muito amor e energia criar cinco filhos, sendo eu o único varão, e minhas queridas irmãs Sheila, Ana, Tâmara e Tarita.

Pois bem meu pai. "Como vão as coisas por aí? Tudo bem?

E a saúde? Continua brigando com os médicos seu hipocondríaco?

Olha seu Vicente. Aqui em Aracaju converso muito com meus amigos, contando com muito orgulho algumas passagens de sua longa vida de 100 anos, quando por exemplo você em Salvador foi desenganado pelos médicos na década de 40, e como você sempre brincou, resistiu ao tempo e foi para o enterro de todos eles.

Conto aos meus amigos que vc foi um dos primeiros brasileiros, senão o primeiro, a se inscrever no Batalhão Suicida, criado para recrutar jovens sem o mínimo de treinamento para reforçar nossas tropas nos campos de batalha na Itália na Segunda Guerra Mundial. Graças a Deus a guerra acabou, porque talvez o baixinho, magrinho e corajoso sergipano não voltasse com vida, e não conheceria uma linda jovem chamada Nelia, e obviamente eu não estaria lhe escrevendo essa carta .risos

Meu velho. Conto com muito orgulho que você foi recebido no Palácio do Catete no Rio de Janeiro pelo então Presidente da República, Getulio Vargas, que assinou o horário de 06 horas dos bancários, após uma grande luta sua quando presidia o Sindicato dos Bancários da Bahia.

Quando falo na sua vida não quero mais parar. Conto como ainda criança de calças curtas, lhe acompanhava nas suas campanhas para vereador de Salvador. E que vereador foi Vicente Batalha. Destemido, aguerrido, corajoso, seu trabalho ficou gravado nos anais da Câmara de Vereados de Salvador, tanto que foi homenageado emprestando seu nome a uma das principais ruas do bairro Costa Azul.

Não tinha muita noção dos fatos em 1964, mas acho que o movimento revolucionário daquele ano interrompeu uma carreira política que estava em ascensão.

Pai. Tenho vivo na minha memória todos os dias você vestindo um terno de linho branco, conversando com minha mãe e a saudosa Nair que ajudou a nos criar, e saindo atrás de emprego, e como você dizia,para que os vizinhos não percebessem que estava desempregado.

Como era possível você conseguir manter cinco filhos em boas escolas?

Fico hoje a imaginar que barra hein pai? Só vc mesmo. O que não é para sempre passa, e lá pelos idos de 1969, se não estou enganado surgiu um grande amigo seu que lhe colocou no antigo IAPC, hoje INSS.

A partir daí a nossa vida melhorou e os cinco filhos foram crescendo até que cada um seguiu seu rumo.

Mas os nossos encontros continuaram. Lembro-me que saía de Aracaju para Salvador e lhe arrastava para a Fonte Nova para ver o meu Bahia jogar. Sou até capaz de me recordar de alguns jogos.

Lembro-me dos sábados e domingos na sua casa quando vc se incomodava e xingava seus netos kkkkk . Gritava. "Nélia, mande esses pestes calar a boca que quero dormir". Silêncio total.

Após o sono lá vinha você com caixa de chocolate, cinco ou dez cruzeiros para dar a cada um, mas antes todos tinham que ouvir trechos da bíblia. Todos ficavam calados porque sabiam o que o avô tinha nos bolsos.

Oh meu velho como você escondia bem. Por trás de um durão e enérgico pai existia um coração imenso, capaz de,como exemplo, quando deixei sua casa com apenas 18 anos, você marcar encontros comigo todos os sábados em um super mercado para fazer minha feira.

E os cuidados com as meninas. O pão amassadinho para enganar Ana que estava com insônia e você dizia que era remédio. Os dengos com Sheila tocando acordeon, o leite da caçulinha Tarita e broncas com Tâmara que era sua gringa.

Oh meu velho não irei me alongar mais, senão irei me lembrar de quando criança inventava uma tosse e ouvia você no quarto ao lado sussurrar para minha mãe de que eu não deveria ir a escola. Embaixo dos lençóis eu vibrava. Quantas noites eu dizia que estava com medo e você vinha para minha cama.

Pois é meu velho. Tempo bom que não volta mais, mas as lembranças continuam vivas.

Sei que essa carta não terá resposta. O telefone não irá tocar e não ouvirei aquela voz rouca me chamando "Albertinho", mas foi a maneira que encontrei para lhe homenagear e parodiando a música afirmar "meu querido, meu velho, meu amigo".

OBS. Vicente Batalha de Matos, meu querido pai, deixou essa vida em 21 de maio de 2016 e completaria no próximo dia 19 de setembro 100 anos.


Carlos Batalha

Jornalista e radialista tendo iniciado a sua vida profissional na Radio Sociedade da Bahia. Chegou em Aracaju para trabalhar na Rádio Cultura de Sergipe passando por vários outros orgãos da nossa imprensa a exemplo da Rádio Jornal, Rádio Liberdade, Rádio e Tv Aperipê onde foi inclusive seu superintendente. Trabalhou também como apresentador na TV Atalaia, TV Jornal e TV Cidade. Exerceu na vida pública os cargos de assessor especial do governo Augusto Franco tendo sido Secretário de Estado de Comunicação e de Esportes no período de 2003 a 2007 e Secretário de Comunicação Municipal da Prefeitura de Aracaju no período de 2013 a 2016.