Um olhar sobre o que nos diz a previsão da Inflação.

Por Karolyne Santana

Publicado em 28/03/2017 as 07:00

Temos lido nos noticiários que o Brasil poderá cumprir o centro da meta da inflação para 2017. É certo que muito poucas pessoas que escutam ou leem uma notícia como essa sabem avaliar qual o verdadeiro impacto econômico deste fato e que expectativas ele remete.

Inflação é um bicho que em décadas passadas já aterrorizou excessivamente os brasileiros. Quem nunca, quando criança, ouviu alguém falar que o preço do feijão dobrava da noite para o dia? Qual adulto que viveu nas décadas de 80 e 90 não tem preocupação com o fantasma da inflação?

Se a aceleração da inflação contrariando o que nos diz a Curva de Phillips (trade-off entre desemprego e inflação) leva em seus calcanhares o aumento do desemprego, então teremos duas coisas terríveis, economicamente falando, de uma só vez. Assim, quando ouvimos que a inflação está para cumprir a sua meta central devemos de verdade sentir um grande alívio, mesmo que momentâneo, mesmo em um momento difícil, porque ainda há esperança para as políticas que precisam ser alçadas, com certeza o caminho seria ainda mais árduo se ela continuasse a acelerar.

Vale lembrar que em 2016, um ano difícil política e economicamente, fechamos no limite superior da meta. Sim, o Brasil tem uma meta de inflação para cumprir anualmente, marcada em 4.5% com tolerância de 2%, superior ou inferior, que ainda fazem parte da história do tripé econômico, que para muitos nos garantia a estabilidade vivida há alguns poucos anos atrás, onde acreditava-se que o crescimento era notório e satisfatório. Neste ano citado a meta atingiu 6,3%, visto o caos em que estávamos, sim é grande coisa, em 2015 ela beirava os 10,7%.

A inflação alta prejudica principalmente as famílias por meio da perda do seu poder de compra, o que denominaremos como corrosão dos salários. Ela, ainda, diminui o horizonte de previsão das empresas e torna o ambiente de mercado imprevisível, afastando os investidores.

Alguns Boletins da Focus, que são emitidos semanalmente pelo Banco Central, explanam uma projeção para 2017 com a inflação em torno de 4,12%, assim sendo poderíamos dizer que se o país cumprir a meta haverá, em 2018, espaço também para continuar a reduzir a taxa de juros real. A redução dos juros poderá reaquecer a demanda, por meio do crédito, e desta forma incentivar a produção e o consumo. O que não seria ruim se ocorrer acompanhada da prática da política correta.

O grande problema então está na identificação adequada de todos os fatores que puxam essa inflação para baixo, tendo em vista a existência de gargalos estruturais na economia brasileira. Podemos considerar que a melhor condição climática aliviou a pressão sobre os preços dos produtos agrícolas, que a acomodação da taxa de câmbio reduziu a pressão sobre os preços dos importados, principalmente nos preços dos insumos para a indústria nacional, mas provavelmente é a recessão o carro chefe desta queda, destacando-se o alto nível de desemprego, que atinge os 13 milhões, uma alta que não se via há muitos anos no país.

A identificação destes problemas fortalece, ainda mais, o debate sobre o esforço necessário para reduzir a inflação e consequentemente os juros, na intenção de produzir políticas que ajudam a reaquecer a economia e reduzir as taxas de desemprego, algo que é pertinente, mas deve-se considerar que dificilmente essas políticas obterão sucesso se não for acompanhada de uma maior responsabilidade fiscal e aumento da poupança pública. É importante ter uma inflação que se comporte dentro dos limites prudenciais, porém é muito mais importante que ela esteja acompanhada de medidas que também conduzem à retomada do crescimento por um longo período de tempo e não somente em um curto prazo.