A Operação Carne Fraca e possíveis efeitos socioeconômicos para o Brasil.

Por Karolyne Costa.

Publicado em 21/03/2017 as 11:50

Nos últimos dias assistimos aos esforços do governo na remediação do que parece ser uma crise iminente. A equipe de Temer, já no domingo, convocou às pressas diversas reuniões, que trataram de envolver desde técnicos governamentais do Ministério da Agricultura, até representantes dos setores de carnes e frios da indústria brasileira. Sem deixar de lado, claro, representações internacionais. O objetivo? Traçar estratégias que reduzam o impactos econômicos negativos que deverão causar as recentes descobertas. A carne misturada a diversos produtos impopulares e indevidos, sob a supervisão de fiscais subornados e que envolve desde pequenos frigoríficos no Paraná a grandes empresas, como as marcas Sadia e Seara.

Como de costume, nos últimos anos, a Polícia Federal brasileira deflagrou mais uma de suas operações e os resultados, para economia, parecem que serão avassaladores. Eis que nos deparamos com uma operação tática que imputa a corrupção às nossas mesas. E você que achou que ela não poderia estar tão perto. Os envolvidos já fazem parte de um cenário bem conhecido ultimamente: servidores públicos e agentes privados. Vamos lembrar das operações Greenfield, Dubai, Livre Concorrência e a própria Lava-Jato. Em comum, elas têm a degradação do cenário econômico em vários setores e estruturas do nosso mercado.

A operação em que nos reportamos é denominada de Carne Fraca e será mesmo um milagre se desta vez principais setores da nossa economia saírem ilesos aos desdobramentos dos fatos. Por que? Mal saíram os relatórios gerais dos possíveis prejuízos à saúde pública, credibilidade do mercado e sistema financeiro e já se corre, nos bastidores, para remediar o que somente a enxurrada de notícias divulgadas tem causado. A União Europeia e os Estados Unidos foram os primeiros, dos mais de 150 países que importam estes produtos, a cobrar informações, as quais devem ser relevantes o suficiente para não gerar grandes sanções e perda de contratos. Na dimensão do problema se deve considerar que o Brasil é o segundo maior produtor de carne do mundo e o país que mais a importa também.

Assim, parece ser assertivo que a balança comercial sofrerá impactos não desejados no lado das exportações, principalmente se nos próximos dias tivermos a confirmação de alterações da preferência do consumidor externo em relação à carne brasileira. O que está para jogo é a credibilidade do país como um todo a vista de mercados que em grande parte são marcados por difíceis barreiras à entrada.

Não longe ainda prever-se dor de cabeça com a demanda interna, a qual não está livre de um impacto negativo. Se os brasileiros se sentem embrulhados e sabotados no seu próprio alimento, visto as milhões de publicações que correm nas redes sociais nos últimos dias,  não há dúvida que sua preferência por estes produtos logo mudará. De tudo que é produzido neste setor média de 80% é consumido internamente.

Diante de tudo que vem sendo apresentado nos últimos anos duas questões são importantemente destacadas no vasto universo econômico e social do país. A primeira questão é sobre a capacidade de resistência da economia as seguidas crises que vem se acentuando com o tempo, que podem ser cíclicas, mas também podem ser estruturais. Trazendo à tona a necessidade de discutir junto à população, tal tema, e conjuntamente com aqueles que fazem política neste país.
Esta discussão independe do cenário econômico que esta operação vá nos submeter, podemos ponderar que se a crise econômica no Brasil for estrutural e não cíclica, como muitos economistas apostam, e que se seus efeitos forem provocados por variáveis exógenas (ações de corrupção por exemplo) e não endógenas, então existirá no país coesão política suficiente para tocar as mudanças estruturais necessárias a volta do desenvolvimento?

A segunda questão de suma relevância é sobre a ameaça real  para democracia que é o alto nível de corrupção, a qual está submergida nossa sociedade, do maior ao menor, dos agentes sociais. Esta análise precisa ser feita tanto do ponto de vista sociológico quanto econômico, pois nos remetem a uma versão profunda e dolorosa da atual situação brasileira. Se a corrupção é mesmo uma grande vilã de qualquer povo, incluindo aí a democracia brasileira, o fato dela parecer está espalhada em todas as estruturas da nossa sociedade, desde um fiscal no setor público até aos executivos de grandes empresas. Estamos mesmos cientes do tamanho das transformações econômica-sociais que o país precisa passar para que casos como o da Carne Fraca não se repitam?

Mesmo sobre possíveis  aumentos publicitários da real situação que a Operação Carne fraca apura temos exata consciência de alguns pontos e não podemos ignorá-los: até tudo ser devidamente esclarecido, continuaremos estarrecidos, os mercados internacionais cada vez mais exigirão e avaliarão as informações recebidas demandando para economia perdas e sanções que couberem, o governo permanecerá tentando tapar os buracos e evitar mais uma crise. Esta é sim mais uma prova que a sociedade brasileira precisa mudar, desde a base, o mais rápido possível, a fim de evitar que se instale um caos, como os que nos mostra a história econômica nos períodos de crise.


Karolyne Costa

Economista com mestrado em desenvolvimento regional e gestão de empreendimentos pela UFS, professora voluntária de Economia Brasileira no curso preparatório da Anpec do DEE/UFS. Consultora Financeira e Assessora Parlamentar.